Bom, nem tudo é como a gente sempre planejou, as coisas mudam, as pessoas mudam, os lugares mudam. Não quero que pareça um clichê, mas a vida dá um “cento e oitenta” no momento mais inesperado. Como cheguei a essa conclusão? Simplesmente não posso ter todo o crédito, eu fiz as escolhas, mas o resto foi fruto do acaso, das ocasiões e outros fatores que simplesmente não podem ser explicados ou descritos como qualquer fórmula da física, como aquela da ação e reação. Se minha vida até uns meses atrás virasse um filme, com certeza não seria digno de uma indicação ao Oscar, talvez uma de ator coadjuvante e melhor trilha. No entanto, as mudanças chegaram, são inevitáveis e podem até ultrapassar o valor que uma estatueta qualquer de ouro possa trazer.
Sempre fui um rapaz calmo, que procurava conquistar as pessoas através de uma qualidade, que modéstia a parte e alguns desastres passados, têm conquistado alguns verdadeiros amigos e potenciais inimigos. A compreensão. Se você tivesse um problema, lá estaria eu, pronto para escutar e aconselhar. Acho que não precisa ser um vidente para descobrir como anda essa estória, mas vou entediá-lo com o resultado, não é nada satisfatório, pois quem sempre escuta um dia precisa ser ouvido ou explode. Ainda não estou à beira de um ataque de nervos, muito pelo contrário, tudo que aconteceu e está acontecendo serve como um fogo, prestes a acender uma tocha que talvez me ajude a esclarecer algumas charadas, mas antes de começar preciso me apresentar melhor, pois não sou só um psicólogo voluntário.
Cresci em uma cidade de interior, filho de pais normais, do modo normal que todos os pais são. Sou o filho mais novo, aquele que passou anos sem entender bem o que está se passando e sem poder dar muita opinião sobre alguns problemas familiares. Desde pequeno sentia que algo estava reservado para mim, que eu seria especial, que me destacaria e isso fez com que eu desenvolvesse um gosto em experimentar tudo, para saber, finalmente, qual seria meu diferencial, meu dom, mas até agora, com 29 anos, ainda não descobri. Talvez não haja nada reservado pra ninguém, talvez isso seja parte de uma daquelas filosofias baratas que vendem milhões de livros de auto-ajuda todo ano. Enfim, continuando. Aos quinze anos deixamos a cidade que morávamos e seguimos para a capital, até então era um adolescente tímido, inexperiente e com péssimo gosto para música e roupas, a vítima perfeita.
Na capital, fui matriculado em uma das melhores e mais caras escolas da cidade, daquelas que o corredor estava cheio de patricinhas, que deixavam um cheiro inigualável por onde passavam, já deviam usar Chanel ou Dior, mas na época eu nem sabia da existência das grandes casas de alta costura, muito menos que elas vendiam perfumes. Os rapazes eram perfeitos, pareciam ter uns três anos a mais que eu, eles sorriam, tinham dentes perfeitos, um jeito particular de andar, falar e sempre tinham uma namoradinha e uma admiradora secreta que ficava os assistindo nas partidas de vôlei durante as aulas de educação física. Eu não usava Chanel e não tinha dentes perfeitos, mas não era o único, fazia parte dos 25% restantes, os coadjuvantes, que só ganhavam um papel maior em dias de prova. Eu era quase invisível, mas eu os observava e ficava pensando como seria se eu fosse bonito e popular como eles. Foi nesse momento que criei um costume que vergonhosa e deliciosamente mantenho até hoje. Antes de dormir fecho os olhos e imagino coisas que queria que tivessem acontecido e fazendo tudo que gostaria de ter feito. Naquela época minha constante fantasia, como imagino que seja a de qualquer adolescente, envolvia minha paixão secreta. Eu gostava de imaginar a seguinte situação: durante a saída da escola o colega de sala mais bonito e popular me daria uma carona e chamaria para sua festa de aniversário à noite. Eu chegaria na festa e ele não me daria atenção, mesmo assim eu ficaria até o fim da festa o admirando secretamente até todos fossem embora, por fim, depois de toda a seção de masoquismo, desistiria e andaria em direção à saída. Ao som de “Always” do Bon Jovi (não se espantem eu tinha 14 anos né!) ele gritaria meu nome antes de ir embora, pediria desculpa e me chamaria para o jardim para conversar. Ao chegar lá nós conversaríamos sobre bobeiras que aconteciam durante a aula e ele de repente me beijaria. Logo após o beijo eu dormia e a hora de acordar logo chegava. Mais um dia para tentar conciliar as aulas de matemática e meus devaneios. Hoje em dia não fantasio sobre o garoto da escola antes de dormir, mas o processo continua o mesmo, envolvendo uma música, uma situação inesperada e uma pessoa, real ou imaginária.
Dos 14 aos 23 anos minha vida foi mais ou menos a mesma, claro, entrei na universidade, tive 999.999 paixões platônicas, arrumei um emprego legal e só faltava casar. Foi aos 23 que tudo mudou, bom, nem tudo, só um detalhe que mudou o curso da minha vida. Comecei a por o pé fora do armário, depois a cabeça e aos poucos fui saindo. Comecei a freqüentar baladas e alguns lugares GLS, conheci algumas pessoas que se tornaram meus amigos... ah, quase esqueci, um detalhe importante, meu irmão também é gay. Como não pretendo ainda fazer um spin-off para os meus 23-29 anos, vou somente falar do que está acontecendo de agora em diante.
Depois de experimentar bem uma vida quase perfeita, surtei. Sim, decidi sair em busca de algo novo, como um trabalho (que me completasse mais), outro cenário e pessoas novas. Então decidi por NY, queria fazer um estágio, mas recebi o recado que a crise mandou para todos, no mundo inteiro, que tinham as mesmas intenções que eu. E agora, o que fazer? Claro, São Paulo! Do momento de decisão até a mudança foram uns 6 meses. Com total apoio das pessoas que mais importam para mim... Aqui estou eu, o LoverBoy, pronto para começar de novo. Só pra constar, nada a ver com Gossip Girl, apesar de curtir a série não pretendo acabar com a reputação de ninguém, mas se preciso for... XOXO! LoverBoy.