Primeira Pessoa
Acordei mais cedo e decidi ir embora antes que ele abrisse os olhos. O sol ainda não tinha saído e eu mal o conhecia, mas a o reflexo da pouca luz na sua pele me fazia sentir como se estivesse abandonando algo que poderia ser especial, algo prestes a começar. No entanto eu não podia ficar e acordá-lo com um beijo, tive que sair antes que algo me convencesse que o acaso não deveria ser descartado. Não posso ceder, esse não sou eu.
Eu machuco as pessoas, vivo dos poucos momentos que me interessam e dão prazer. Gosto do processo de sedução, de conhecer pessoas, de senti-las. O meu bom realmente é enquanto dura, e não dura muito, não há explicação. Mais uma vez abri a porta da casa de um desconhecido, deixando pra trás outra noite, outra conquista que não leva a nada, outro rosto que logo esquecerei.
Não procuro pensar muito se eu poderia ser feliz com algum deles, prefiro viver numerosos bons momentos com várias pessoas do que uma vida conformada com alguém que pra mim não seja nada mais do que uma boa companhia. Mesmo estando acostumado com todo este processo que se repete por noites e noites, mil e uma coisas passam pela minha cabeça no caminho de casa, sinto como se meus pés andassem somente por instinto.
Ao chegar em casa, o silêncio me recepciona e me beija, dizendo: já está na hora de desistir, chega de andar em círculos, chega de mentir. Mas eu não escuto o silêncio e ele não me convence. Tomei um banho, um analgésico e tentei dormir. Não consigo alcançar meus pensamentos, eles não me deixam dormir. Enfim o cansaço vence minha mente.
Ao acordar peguei minha calça no chão, retirei a carteira e achei um bilhete que dizia: eu não posso esperar pra sempre.
Terceira pessoa
Ele me olhava diferente, não tirou os olhos de mim a noite inteira. Senti como se fosse uma presa consciente, esperando que o ataque acontecesse. A música por mais alta que estivesse não conseguiria bloquear aquela conexão. Vários já passaram por mim, ninguém interessante, ninguém com aquele olhar vazio e cansado, mas extremamente sedutor. Ele não se mexia, não precisava, pois sua beleza atraia as pessoas como insetos são atraídos pela luz.
Por que eu? Por que aqueles olhos me invadiam e me hipnotizavam? Não, eu não poderia dar um passo em sua direção, pois seria mais um, outra noite, outro rosto. Uma mentira a mais não iria fazer efeito, eu estava cansado do modo que tudo se repetia. Mas ele deu um passo e perdi a concentração, tentei olhar para os lados, mas as pessoas sumiram e as paredes pareciam se estreitar, então não tive escolha a não ser olhar em sua direção. Ele já estava na minha frente, não pude evitar.
Ele se apresentou, perguntou meu nome e me beijou. Ele tinha uma mão forte e apertava minha nuca, que ardia e estimulava todo meu corpo. Seu beijo era suave e desinibido, naturalmente ele me sugava e quanto mais me beijava mais eu me convencia que iria, mais uma noite, ceder ao desejo. A noite seguiu como uma previsível reação em cadeia, como 100 dominós posicionados um na frente do outro, derrubando o seguinte sem piedade, inconsequentemente. Quando ele adormeceu, peguei um pedaço de papel, escrevi algo e coloque no bolso de sua calça. Não espero nada dele, o conteúdo naquele papel era mais um desabafo meu que talvez pudesse servir pra outra pessoa, mas a esperança prevalecia de algum modo.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
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